domingo, 22 de outubro de 2017

QUEM DECIDE EM CASA? TV NOVA!

TV NOVA!!!



Arthur, 9 anos, e Paulo, 6 anos, estavam muito ansiosos pela chegada da nova TV. Eram 16 horas quando a loja entregou. Agora eles não se continham de agitação, esperando pela chegada do pai, pois mamãe declarou que “só em sua presença” a novidade seria aberta.

Naquele dia papai chegou tarde, extenuado, mas como adiar mais um dia a espera dos filhos?

Abriram a caixa, instalaram a TV, plugaram… e como fazer funcionar? Como usar os comandos do controle? Aquela hora do noite, com o dia carregado nas costas, as letrinhas minúsculas do manual em inglês ou espanhol, parecia um desafio impossível. Eis que Arthur sugeriu: “Deixa que eu consigo!!!”

O pai disse que não, melhor ele mesmo tentar. Podemos deixar para amanhã, sugeriu depois de um tempo cansado da sopa de letrinhas que via no manual. “Olha, pai, é só sintonizar aqui.”- tentou Arthur.

Opa! Conectou-se um menu. O pai, já mais flexível, entregou o controle na mão dos garotos, enquanto prosseguia a leitura das instruções.

Arthur e Paulo disputavam o controle, começaram a brigar. A mãe interveio, sugerindo que Arthur deixasse o menor olhar um pouquinho.
“Mas ele mal sabe ler”, retrucou Arthur. “Não vai conseguir”.
Neste meio tempo, Paulo já estava dentro do modo TV e escolhendo seus desenhos para assistir.

Neste novo universo digital, muitas vezes são os filhos que detêm o saber e a habilidade, fazendo com que os pais se sintam fora “do comando”.
Muito provavelmente vocês pais leitores lembram-se de seus pais serem as grandes fontes de transmissão de saber. Mas, com certeza, já se viram na estranha situação de dependerem dos filhos tanto para decifrar, como para escolher por vocês o modelo do celular ou som e TV que vão adquirir. São eles também que, com facilidade, conseguem informações e roteiros para os programas em família. Isto os coloca em uma posição de privilegio e inverte a ordem das gerações – os filhos passam a ser os instrutores dos pais.
É claro que nós pais ficamos orgulhosos com a inteligência e “esperteza” dos filhos, afinal são melhores que a gente!!! Com rapidez decifram o que para a outra geração era desafiador e enigmático.

Esta inversão que parece banal e corriqueira nos nossos tempos pode comportar uma mensagem um tanto complicada – são eles quem sabem! E como saber, muitas vezes significa poder… serão eles que podem! Eles decidem!

Sim! Nós criamos os filhos para o mundo e superar os pais, em geral, é esperado, mas na idade adulta. O controle digital desta geração, os leva a crer em uma autonomia que pouca maturidade têm para exercê-la. Acham que podem, agora, tudo sozinhos sem a tutela de pais e professores. Muitos dos conflitos e desafios vistos nas escolas e nas famílias parecem se pautar neste tipo de vivência.

Como sair desta? Afinal é verdade que no quesito digital eles realmente levam a supremacia.
Então Pais! Vamos pensar em que outros aspectos estaríamos agindo da mesma forma? Em quais situações nós poderíamos estar abrindo mão desnecessariamente de ser o tutor do filho? Devemos ter cuidado para não acreditarmos que o fato dos nossos filhos terem esta habilidade que a nossa geração nem sequer sonhou.


QUEM DECIDE EM CASA?

Pizza de Domingo







Papai decidiu comprar um pizza para o jantar. Claro! Ele já saboreava sua tradicional e adorada calabresa… faz tempo que não comia uma, pensou… Mamãe logo concordou! Aposto que já pensava na sua de abobrinha… eis que André, 4 anos, declarou: “quero pissa de queso”. Pais se entreolharam um pouco desolados:

“Bom, pedimos 1/2 de abobrinha e 1/2 mozzarella para André. Na próxima eu escolho a nossa metade, tá bom querida?”, papai vem a conciliar.
Mamãe remenda: “E a Joana?”, filha de 2 anos do casal.
“Para ela, mozzarella está bom”, papai afirma resoluto.
“Será?” Mamãe duvida.

Como você, leitor, acha que deve acabar esta história?
O que faria no lugar destes pais?

Hoje, cada vez mais, vemos os filhos serem aqueles que decidem tudo em casa. Parece que nós, pais, deixamos de dizer o que pode ou não pode, de resolver como será uma mera pizza de domingo.

A família que, tradicionalmente, deveria ser a transmissora da cultura, portanto balizadora das normas de conduta, ultimamente, vem deixando de exercer estas funções. E a educação dos nossos pequenos, cada vez mais vem sendo delegada a cuidadores profissionais ou a instituições de educação, uma vez que os pais necessitam se afastar para trabalhar por longos períodos, restando-lhes pouco tempo para se dedicarem ao convívio com os filhos.

Quando presentes, os pais não têm vontade de dar limites ou ocupar o espaço de educadores, pois sentem-se culpados devido ao seu longo período de ausência, querendo compensar os filhos como sendo muito prazeroso os poucos momentos que podem desfrutar juntos.

Infelizmente a ideia de uma boa convivência é associada a momentos sem regras ou limites. Um momento legal seria aquele em que pode tudo! Que se pode desfrutar de tudo! As crianças vêm sendo ensinadas por nós que tudo podem, e nós adultos lhes devemos um mundo de alegrias e prazeres.

Isto acontece pelo fato dos pais temerem ser considerados pelos filhos como “pais ruins” quando além da ausência, têm que impor regras e limites. Mas não esqueçam que serão justamente estas regras e limites que farão com que os filhos cresçam seguros, não vivendo qualquer frustração como uma catástrofe irreversível.

As regras e os limites, quando bem administrados, não gerarão crianças mimadas e birrentas, revindicando que o mundo gire só em torna delas. É claro que um choro sempre tem um valor de comunicação e também não pode ser só compreendido como resultado de um mal comportamento ou birra, mas não podemos perder de vista que limites e novos desafios são importantes para a conquista da autonomia e maturidade da criança. Desta forma, quando crescerem vão poder agir como adultos. Devemos nos perguntar, seriamente se não estamos transmitindo um ideal de mundo em que tudo e todos lhes devem muita alegria e satisfações, tudo é de seu direito, todos devem lhe servir.

Portanto, pais, não deixem de dar estes contornos tão necessários para o desenvolvimento dos seus filhos. Diversão e brincadeira são muito importantes! Mas não é só isto! Ser pai e mãe é dar contorno e valores que só são transmitidos através de atitudes coerentes e consistentes. Dar rotina, regras e limites é nossa função!


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

" O SILÊNCIO QUE FALA"

         O filme "Silencio que fala", dirigido por Miriam Chnaiderman, dá voz aos pais de pessoas que foram diagnosticadas com autismo. São relatos de tocantes experiências sobre pessoas que se beneficiaram do trabalho psicanalítico, colhidos em várias cidades e instituições do Brasil pelo Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP).





segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

POR QUE ATENDER PAIS E CRIANÇAS?

     





“Paulo e Vera procuram auxílio para seu filho André, hoje com 4 anos, que vem apresentando comportamento de isolamento na escola. Não quer conversar com eles sobre o que está acontecendo. Prefere brincar sozinho, solicitando pouco os adultos. Requer atenção apenas quando quer alguma coisa. Vera relata que se sente isolada. Esta sensação lhe remete à sua infância, quando seu pai retornava muito alterado para casa e agredia sua mãe e irmã mais velha. Ela mergulha nesta lembrança de ambivalência: ficou de fora da cena agressiva, mas, por outro lado, isto lhe salvou. O isolamento do filho parece cutucar esta lembrança.”



O relato acima, embora fictício, ilustra o cotidiano do acolhimento clínico que se realiza no atendimento de crianças. Acolher e receber as tramas dramáticas de uma família é o nosso ofício. Sabemos como as tragédias familiares têm o dom de se emaranhar com a história subjetiva de cada um de nós. Com a família de André, o mesmo processo acontece.
Poder falar de como um evento trágico incide no drama pessoal de cada um dos envolvidos está longe de colocar ambos como causa e consequência. Mas vemos que, em muitos casos, ao realizar este trabalho de circulação dos eventos da história familiar, as condições e relações entre os membros desta família melhoram, isto é válido também para as crianças.
É da maior importância ter claro que fatos da história não são suficientes, principalmente nos casos de maior gravidade, para afirmar a causa de uma sintomatologia na infância. Mas não devemos esquecer que somos seres históricos e estamos acostumados a pensar nesta perspectiva. Somos a única espécie que tem noção do tempo, a qual cada pessoa se comporta de forma única e é capaz de construir uma trama psíquica sobre suas vivências.
Esta construção não deve ser entendida como causa de uma doença.   Ela se inscreve nas nossas vivências, principalmente diante do sofrimento. Mas não necessariamente explica a causa de uma doença. São realidades distintas. Estamos diante de uma pluralidade de fatores aonde a reconstrução de um fato difere muito da reconstituição dos fatos. Incorrer na confusão entre a possibilidade de reconstrução simbólica de uma vivência e a restituição do factual tem suas implicações éticas.
Quando vê o isolamento de seu filho André, Vera é invadida por lembranças. Ao se trabalhar tais lembranças ela terá novos recursos para lidar com André sem se paralisar diante dos sentimentos de solidão e isolamento que sua lembrança evoca. O movimento interno de Vera pode abrir novas possibilidades para André, inclusive para que este possa realizar o seu trabalho analítico. Vejam, não estamos falando de causa de uma doença e sim do movimento plástico das tramas psíquicas.
Quando uma família nos solicita ajuda, está em dificuldades e seus membros sentem-se sozinhos. Sabemos da dor dos pais quando nos procuram e da dificuldade de enfrentarem estas dores sozinhos.
Nós, analistas, também somos afetados pelos dramas dos quais cuidamos, mas compartilhar ou demonstrar tais sentimentos podem mais atrapalhar do que ajudar as crianças e famílias em uma análise. Tais sentimentos costumam ser uma ótima bússola para ajudar no tratamento, dão notícias sobre as vivências das famílias.  Mas isto não quer dizer que entendemos ser possível achar um culpado ou uma causa única para o que está acontecendo com a criança e a família.

Toda esta discussão, da maior importância, vem sendo nosso foco, tanto nos acolhimentos institucionais como nos consultórios.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Como deve ser o trabalho de profissionais da saúde na primeira infância?

Entrevista concedida à TV UNESP

A psicanalista Mira Wajntal destaca o papel de intervenção para diagnosticar patologias


http://www.tv.unesp.br/3953




Os profissionais de saúde têm um papel fundamental ao compreender a relação entre pais e filhos a fim de diagnosticar indicadores que podem mostrar patologias graves. A psicanalista Mira Wajntal detalha o trabalho de formação no Instituto Sedes Sapientiae e da prefeitura de São Paulo nos hospitais de infância.

Mira detalha ainda que faltam políticas públicas para valorizar as crianças com problemas psíquicos.



domingo, 26 de outubro de 2014

DE ONDE NASCE O BULLYING?*






Se pensarmos bem sobre a vivência de ser intimidado (bullying), quer a tenhamos sofrido ou a assistido de perto, veremos que há sempre um conteúdo de vingança na intimidação. Curiosamente, a intimidação é praticada, justamente, pelas pessoas que se sentem ameaçadas ou privadas de algum bem de usufruto que um colega possui ou que ele crê que possui. Estes bens podem ser tanto materiais, como uma posição de prestígio, ou de ser amado.
O desejo de igualdade e justiça acaba por esconder seu verdadeiro objetivo que é fazer com que o outro, o rival, sinta-se exatamente como nós, sem nada.
Hoje em dia, o mundo moderno valoriza não o que se é, mas o que se tem. Acredita-se que o ter é igual a poder usufruir da vida.

Aquele que exerce a intimidação em geral é uma pessoa que teme muito perder. Isto pode ocorrer porque esta pessoa já teve vivências dramáticas, vivências de privação, ter sido vítima de bullying, ou pela resolução que deu a seu conflito invejoso[1].  O Intimidador é aquele que por temer em demasiado perder, e sabe disto, se vale de uma tentativa de liderança, atacando um colega semelhante, pessoa que tem uma fragilidade que ele identifica como igual à sua, garantindo a sua liderança e, portanto, sua imunidade ao ataque - ataca para se assegurar que não será atacado. Embora negue, o agressor está fortemente identificado com sua vítima.

Vemos que há um grande correlato entre pessoas que dizem ter sofrido uma intimidação e as que exercem uma intimidação. Ou seja, o pensamento do tipo: “já que fizeram comigo, faço por vingança” parece estar em uma parcela significativa dos casos.
Isto também nos lembra dos jogos infantis, nos quais veremos que a criança repete justamente o que há de mais desagradável para si. Esta curiosa repetição é a forma de dominar suas vivências desagradáveis. Domínio este que lhe dá prazer.

Por fim, situação que muito instiga pais e educadores é o fato das vítimas não pedirem socorro. Isto parece acontecer, em parte, pelos mesmos mecanismos. Por se ver identificado com o intimidador, que usufrui do prestígio de líder, a vítima teme perder seu lugar junto ao líder e a ele se submete. Mas, creio que na primeira oportunidade de exercer esta atividade - de intimidar - ele irá fazer, por vingança, mesmo que em outro colega ou ambiente.

Está aí uma boa chave para a discussão do tema, tanto entre pais e educadores, como em um grupo em que este processo esteja ocorrendo.





*Baseado nos comentários realizados na banca de TCA de Bruna Carvalho Simões no Colégio Oswald de Andrade (2013).


[1] Leia mais sobre os sentimentos de inveja no texto publicado sobre o tema neste blog.